jueves, 27 de agosto de 2009

Rubem Fonseca

Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1925. Formado em Direito, exerceu várias profissões antes de se dedicar inteiramente às atividades literárias. Acredita, como Joseph Brodsky, que a verdadeira biografia de um escritor está nos seus livros. Mora no Rio de Janeiro desde os 8 anos de idade.



http://literal.terra.com.br/rubem_fonseca/biobiblio/cronologia/cronologia.shtml?biobiblio2

Trecho de A FORÇA HUMANA
”Te dependura aqui na barra”, disse o João. “Aqui?”, perguntou Waterloo, já debaixo da barra. “É. Quando a tua testa chegar na altura da barra, pára.“ Waterloo começou a suspender o corpo, mas no meio do caminho riu e pulou para o chão. “Não quero palhaçada aqui não, isso é coisa séria”, disse João, “vamos novamente.” Waterloo subiu e parou como o João tinha mandado. João ficou olhando. “Agora, lentamente, leva o queixo acima da barra. Lentamente. Agora desce, lentamente. Agora volta à posição inicial e pára.” João examinou o corpo de Waterloo. “Agora, sem mexer o tronco, levanta as duas pernas, retas e juntas.” E o crioulo começou a levantar as pernas, devagar, e com facilidade, e a musculatura do seu corpo parecia uma orquestra afinada, os músculos funcionando em conjunto, uma coisa bonita e poderosa.

Este conto está no livro A coleira do cão.



Trecho de A ARTE DE ANDAR NAS RUAS DO RIO DE JANEIRO







































Augusto, o andarilho, cujo nome verdadeiro é Epifânio, mora num sobrado em cima de uma chapelaria feminina, na rua Sete de Setembro, no centro da cidade, e anda nas ruas o dia inteiro e parte da noite. Acredita que ao caminhar pensa melhor, encontra soluções para os problemas; solvitur ambulando, diz para seus botões.

No tempo em que trabalhava na companhia de águas e esgotos ele pensou em abandonar tudo para viver de escrever. Mas João, um amigo que havia publicado um livro de poesia e outro de contos e estava escrevendo um romance de seiscentas páginas, lhe disse que o verdadeiro escritor não devia viver do que escrevia, era obsceno, não se podia servir à arte e a Mammon ao mesmo tempo, portanto era melhor que Epifânio ganhasse o pão de cada dia na companhia de águas e esgotos, e escrevesse à noite. Seu amigo era casado com uma mulher que sofria dos rins, pai de um filho asmático e hospedeiro de uma sogra débil mental e mesmo assim cumpria suas obrigações para com a literatura. Augusto voltava para casa e não conseguia se livrar dos problemas da companhia de águas e esgotos; uma cidade grande gasta muita água e produz muito excremento. João dizia que havia um ônus a pagar pelo ideal artístico, pobreza, embriaguez, loucura, escárnio dos tolos, agressão dos invejosos, incompreensão dos amigos, solidão, fracasso. E provou que tinha razão morrendo de uma doença causada pelo cansaço e pela tristeza, antes de acabar seu romance de seiscentas páginas. Que a viúva jogou no lixo, junto com outros papéis velhos. O fracasso de João não tirou a coragem de Epifânio. Ao ganhar um prêmio numa das muitas loterias da cidade, pediu demissão da companhia de águas e esgotos para dedicar-se ao trabalho de escrever, e adotou o nome de Augusto.

Agora ele é escritor e andarilho. Assim, quando não está escrevendo - ou ensinando as putas a ler -, ele caminha pelas ruas. Dia e noite, anda nas ruas do Rio de Janeiro.

Este conto está no livro Romance negro e outras histórias.

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